Com o trunfo Lula na mão, Dilma Roussef parte à conquista do Brasil

Dilma Roussef, Lula e a sua mulher, Marisa Letícia, no Congresso do PT (Evaristo Sá/AFP)

Matéria Publicada no Jornal “Público”
Por Maria João Guimarães

A sucessora do Presidente vai ter que tirar a “cara de escritório” e “sorrir sempre” se quiser ganhar o eleitorado – e também o partido e do seu parceiro de coligação

Dilma Rousseff, a ministra mais conhecida pelo perfil técnico e fato escuro a condizer, continuou ontem a sua caminhada para ser candidata presidencial do PT, com um estilo mais descontraído e sorriso pronto, sendo aclamada como a escolha do partido para disputar as presidenciais de Outubro. “Estou completamente pronta!”, garantiu ontem Rousseff ao lado do Presidente Lula da Silva

A proclamação da candidata do partido à sucessão de Lula foi feita no quarto congresso do Partido dos Trabalhadores, a decorrer em Brasília. A ministra foi uma escolha pessoal de Lula, e não do partido. Sendo a escolha de Lula, Dilma Rousseff tem como trunfo o Presidente e a sua popularidade – Lula tem uma aprovação de 84 por cento. Mas ainda não tem o total apoio do partido.

Aliás, lembra o analista político Heber Maia numa troca de e-mails com o PÚBLICO, Dilma Rousseff não é fundadora do PT. “Ela iniciou a sua vida política no PDT de Leonel Brizola, mas não é vista como um corpo estranho devido à sua história de luta contra a ditadura militar de 1964 a 1985”, sublinha.

Dilma Rousseff surge como presidenciável por uma sucessão de acasos e primeiro que tudo por ausência de candidatos com peso dentro do PT, sublinha João Augusto de Castro Neves, consultor da empresa CAC, numa conversa telefónica com o PÚBLICO. Dilma Rousseff é uma ministra técnica, que passou pelas Minas e Energia (pasta que já tinha ocupado na administração do estado do Rio Grande do Sul, onde começou a sua carreira política). É actualmente ministra da Casa Civil da Presidência, para onde passou quando saiu o ministro José Dirceu, o principal colaborador político de Lula, na sequência do escândalo do “mensalão” (em que o PT distribuía verbas a deputados em troca de aprovação de projectos do Governo).

Na Casa Civil, Dilma Rousseff começa a ganhar estatura (o ministério acaba por centralizar algumas políticas emblemáticas do Governo e o cargo é, no fundo, semelhante ao de um primeiro-ministro, dizem os analistas) e Lula escolhe-a para ser a sua sucessora.

A Medvedev de Lula?

Qual a razão da escolha de Dilma Rousseff? “Ninguém sabe exactamente”, diz Castro Neves. “Primeiro, não havia grandes nomes no PT – que foi um partido formado para pôr Lula no poder. É como se Lula fosse uma grande árvore à sombra da qual outras não conseguem crescer”. Por outro lado, era importante que Lula escolhesse alguém “porque senão iria ter uma enorme briga dentro do partido” – e o PT tem várias correntes com ideologias diferentes que facilmente entram em discórdia. E há quem especule que Lula escolheu Rousseff por ser uma mulher. “Talvez Lula tenha olhado para essa tendência de mulheres no poder, no Chile, na Argentina… O Brasil tem um Presidente operário, poderia ter uma presidente mulher”, especula o consultor.

“Muitos dizem que Lula vai voltar. Que Dilma seria uma espécie de Medvedev de Lula” [Dmitri Medvedev assumiu a Presidência da Rússia enquanto o anterior Presidente, Vladimir Putin, ficou como primeiro-ministro, especulando-se que irá candidatar-se de novo nas próximas eleições]. Mas, numa entrevista a O Estado de São Paulo, Lula recusou pretender regressar. “Dilma é para dois mandatos”, garantiu. “Ninguém aceita ser “vaca de presépio” e muito menos eu iria escolher uma pessoa para ser “vaca de presépio”.”

A relação de forças entre o PT e Lula vai ser diferente, concordam ambos os analistas ouvidos pelo público. “Neste congresso o PT procura fortalecer a imagem institucional partidária”, diz Heber Maia. “Com uma candidata que não tem pegada de palanque e a capacidade de liderança do Presidente Lula, características que poucas pessoas neste planeta possuem, o engajamento e mobilização partidária serão fundamentais”, sublinha o cientista político. A grande questão nestas eleições é se “Lula conseguirá realmente transferir toda a aprovação do seu trabalho para outra pessoa que nunca disputou uma única eleição”, diz.

Nas mãos do partido

Por isso, há quem diga que Rousseff ficaria mais à mercê do partido e que poderia ter políticas mais à esquerda e mais estatizantes. Mas nenhum dos analistas partilha desta opinião.

Heber Maia acha que “Dilma é provavelmente ainda mais pragmática do que o Presidente Lula”. João Augusto de Castro Neves sublinha que “poucas pessoas conhecem um histórico de Dilma”, mas ainda assim especula que um governo chefiado por Rousseff manteria as linhas emblemáticas do Governo Lula, mas que a grande dificuldade da presidente seria fazer reformas. “Nem Lula, com a sua experiência política e sindical, e com a sua popularidade e carisma, conseguiu fazer certas reformas, como a tributária ou da previdência”. E uma coligação de Governo de Dilma Rousseff será tão heterogénea como a da actual Administração Lula, e terá sempre fricções com o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), “um partido cuja única ideologia é estar no poder e é por isso, por natureza, não-reformista”, comenta o consultor político.

PT e PMDB já se têm, aliás, envolvido em polémicas como sobre quem seria o “vice” de Rousseff e ainda no congresso do PT o partido provocou os aliados excluindo o seu nome da lista de apoios à candidatura de Rousseff.

Mas as acções do PT são muitas vezes diferentes depois das do Governo, sublinhou o próprio Lula na entrevista ao “Estadão”. “O partido, muitas vezes, defende princípios e coisas que o Governo não pode defender.”

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